Não era alta, nem muito baixa. Não era gorda, tampouco magra. Olhos escuros, tão turvos que mal se podia definir entre pupila e retina. A boca desenhada em perfeita harmonia e o nariz era como o toque final. Dedos levemente alongados. Pernas descritas em linhas suaves. Cintura de dar inveja em muitas outras meninas.
Porém tudo isso era como um segredo trancado à sete chaves. Chaves, as quais, nem ela mesma sabia que as possuía. Quando pequena nunca teve oportunidade de conhecer a si mesma. Mal via seu pai, pois era um homem muito ocupado. Em verdade, se fazia mais ocupado do que realmente era. Não suportava sua mulher. Casara-se por conveniência e ela sabia disso. Sua mãe não à maltratava, mas também não à estimulava.
Maria cresceu nas sombras de sua mãe. Não trocavam sequer olhares. Vez ou outra uma ordem e um balançar de rosto como concentimento. Nunca conversaram mais que três ou quatro palavras. Na infância, enquanto a ingenuidade ainda a protegia, Maria insistia em tentar arrancar algum carinho, algum olhar, ou palavra que esquentasse um pouco mais seu coração. Cresceu sem saber o que era isso que ela tanto soube precisar mas nunca conhecera. Curiosamente tinha em seu pai uma figura de bom homem estampada, mas nunca questionou.
Por esses e tantos outros motivos, Maria não aprendeu a se gostar. Por sorte, conseguiu aprender a se proteger. Não tendo precisado olhar nos olhos de sua mãe, não aprendeu andar com o olhar na linha do horizonte, mas conhecia o chão do caminho por onde percorria todos os dias como a palma de sua mão. Usava o cabelo desgrenhado, jogado na cara. Roupas largas que julgava confortáveis, mas nem sabia porque as escolhia, no fundo nunca gostou delas.
O tempo passou. Maria passou todos os anos escolares sem amigos. Não conhecia o carinho, por isso não sabia dar. Foram poucos os que tentaram se aproximar dela, mas acabaram desistindo.
Certa vez Maria foi à um circo. Foi a primeira vez que sentiu seu coração bater mais forte. Confusa com os olhos cheios d'água. Embebida pela emoção, desejou estar no lugar de cada pessoa que se apresentava em sua frente. Queria voar como trapezistas, queria ter controle em suas mãos como malabaristas, a coragem dos equilibristas ou dos domadores de leões... mas uma criatura chamou mais atenção que todas as outras: o palhaço! Não sabia quem era, não sabia sua história. Ninguém sabia, mas percebera como todos gostavam dele, como riam. Desejou poder se esconder ali também. Não ser ela mesmo, por minutos que fossem.
Sem chance! Não aceitaram ela em sua trupe...
Alguns anos se passaram, mas não o bastante que tirassem a juventude de seus traços. Maria estava sentada em um banco, na beira da praia. Pensamento vago, olhar destraído percorrendo a linha do horizonte. Vez ou outra enxergava algum navio. Percebeu que não estava só, mas não quis ver quem era. Certamente algum mendigo lhe pedindo centavos para um pedaço de pão ou um pingado quente. Sua visão periféica conseguiu perceber algo fora do comum, decidiu se render ao magnetismo da curiosa figura. Sua memória era falha, mas reconheceu as cores. Um palhaço! "Posso me sentar?". Maria concentiu. O silêncio se fez cada vez mais surdo, cada vez mais intenso e doloroso no coração da moça. Ela o fez se romper...
- Porquê?
A figura de rosto pintado de branco esperou que ela terminasse o que seu fôlego ainda se preparava para liberar.
- Porque nunca pude ser um palhaço, porque não pude me esconder?
- Moças como você não podem ser palhaços. São mais como bonecas de pano: flexiveis, resistentes, confortáveis, amáveis. Nelas muitas crianças poem todo amor que nunca puderam dar a uma mãe... - tomou fôlego e continuou pausadamente - Porque quer tanto se esconder?
- Você não faz idéia dos motivos que me levam a querer isso, mas não questione minha vontade.
- Certamente.
O silêncio novamente pairava no ar, mas desta vez não encomodou Maria.
Era a vez do palhaço intervir.
- Palhaços tiram sorrisos onde existem sorrisos. Eles não dão sorrisos, não roubam sorrisos. Mostram apenas que é possível sorrir por mais profunda que seja a dor, por mais impertinente que seja a preocupação de cada um sentado em sua platéia.
Maria lembrou-se da noite no picadeiro. Ela não riu...
- Passou a vida escondida. Não percebe? Você não quer se esconder... Quer ser vista!
Maria olhou para o lado. Estava sozinha novamente...
Eitaa meninaa, ta cada vez melhor hein, Parabéns \o/.
ResponderExcluirViciei já no seus textos oO
nooooooooooossa, adorei =O
ResponderExcluirNossa! Esse texto Maria é fenomenal, aliás que nome poderia ser mais bem aplicado a seu texto? Parabéns mesmo! Gostei muito! Você tem um jeito de escrever, descrever que envolve até a última linha, merece publicação! hehe
ResponderExcluirBeijos